Há poucos anos, mapear risco digital significava pensar principalmente em invasões, ransomware, vazamento de dados e interrupção de sistemas. Esses riscos continuam existindo – e os números das indenizações mostram que suas consequências financeiras são concretas. A diferença é que agora a IA começa a alterar tanto a escala quanto a natureza dessas exposições.

Os números mais recentes do mercado brasileiro ajudam a dimensionar essa exposição. Entre janeiro e abril de 2026, as indenizações pagas pelo seguro cibernético chegaram a quase R$ 30 milhões, crescimento de nada menos que 253,1% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a arrecadação da modalidade cresceu 71,1%, alcançando R$ 134,6 milhões em prêmios.

Esses percentuais não significam, isoladamente, que o risco cibernético tenha aumentado na mesma proporção. O crescimento pode refletir uma combinação de maior contratação de seguros, aumento da frequência ou severidade dos sinistros, expansão da exposição digital e amadurecimento do próprio mercado. Mas os valores deixam claro algo mais importante: o risco digital já produz consequências financeiras concretas e relevantes para as empresas.

É justamente nesse cenário que a inteligência artificial acrescenta uma nova camada de complexidade. No Allianz Risk Barometer 2026, a IA apareceu pela primeira vez no ranking brasileiro e já ocupou o primeiro lugar, citada por 32% dos participantes, imediatamente à frente dos incidentes cibernéticos, com 31%. Globalmente, cyber continua liderando, enquanto a IA saltou da décima para a segunda posição em apenas um ano.

A proximidade entre os dois riscos não parece casual. A IA pode ampliar a capacidade de produzir phishing mais convincente, automatizar ataques, explorar vulnerabilidades e sofisticar fraudes por meio de falsificação de voz, imagem e identidade. Ao mesmo tempo, sua utilização dentro das próprias empresas cria outras exposições: acesso automatizado a sistemas e dados, vazamento de informações confidenciais, decisões incorretas tomadas por modelos, problemas de propriedade intelectual e dúvidas sobre responsabilidade quando uma ação automatizada provoca prejuízo.

O avanço dos chamados agentes autônomos torna essa fronteira ainda mais difícil de definir. Sistemas de IA já conseguem receber um objetivo e executar sucessivas ações com algum grau de autonomia, inclusive acessando ambientes corporativos para realizar determinadas tarefas. Para o mercado segurador, isso começa a produzir uma questão que até pouco tempo atrás parecia teórica: o que acontece quando um sistema autorizado a entrar em uma rede provoca um dano sem que tenha ocorrido uma invasão convencional?

A resposta interessa muito além das seguradoras. Imagine uma fraude em que um deepfake reproduza a voz de um executivo e induza um funcionário a realizar uma transferência. Estamos diante de um incidente cyber, de fraude, de crime ou de falha de processo? E se um agente de IA, utilizando credenciais que recebeu legitimamente, expuser informações confidenciais ou executar uma ação que interrompa uma operação?

Essas situações mostram por que a evolução tecnológica tende a tornar insuficiente uma gestão baseada apenas em categorias estanques de risco. Cyber, crime, responsabilidade civil, erro operacional e risco tecnológico podem se encontrar em um mesmo evento, enquanto as consequências atravessam diferentes áreas da organização.

Para as empresas, portanto, a pergunta mais importante talvez não seja qual seguro cobre inteligência artificial. Antes disso, é preciso entender quais exposições a IA está criando ou modificando dentro da operação, quais controles existem para administrá-las e quais consequências precisam ser transferidas para o mercado segurador.

Essa mudança já começa a chegar às próprias apólices. Seguradoras internacionais estão revendo definições e condições de coberturas cyber para lidar com situações envolvendo agentes autônomos e outros riscos associados à IA. O desafio é especialmente complexo porque ainda existe pouco histórico de sinistros capaz de mostrar com precisão como essas exposições se comportam e quanto podem custar.

Na SICCS, acompanhamos essa transformação porque a evolução do risco precisa ser acompanhada pela evolução da proteção. Quando novas tecnologias embaralham fronteiras que antes pareciam claras, compreender a exposição real de cada empresa torna-se ainda mais importante do que simplesmente atribuir um nome ao risco.


Fontes
www.allianz.com
www.gov.br/susep
www.cnseg.org.br
www.reuters.com
www.weforum.org
www.ibm.com